O inverno traz uma série de mudanças no comportamento e na fisiologia dos animais de companhia. Com a queda das temperaturas, é comum observar um aumento na incidência de doenças respiratórias em cães e gatos. Além do impacto direto do frio sobre o sistema imunológico, há também mudanças ambientais que favorecem a disseminação de agentes infecciosos, especialmente em locais com maior concentração de animais.
Neste artigo, abordaremos os principais agentes etiológicos, sinais clínicos, condutas diagnósticas e terapêuticas, além de estratégias preventivas que todo médico veterinário deve considerar durante os meses mais frios do ano.
Doenças respiratórias mais frequentes
🐶 Em cães: Complexo Respiratório Canino Infeccioso (CRCI)
O CRCI, também conhecido como “tosse dos canis”, é uma síndrome infecciosa altamente contagiosa, transmitida por aerossóis, contato direto ou superfícies contaminadas. Acomete especialmente cães que frequentam locais com alta rotatividade de animais, como hotéis, petshops, abrigos e clínicas.
Principais agentes etiológicos:
- Bordetella bronchiseptica
- Vírus da Parainfluenza canina
- Adenovírus tipo 2
- Mycoplasma spp.
Manifestações clínicas:
- Tosse seca, persistente e, às vezes, em acessos com engasgos
- Corrimento nasal seroso ou mucoso
- Espirros e desconforto respiratório
- Em quadros complicados, pode evoluir para broncopneumonia, febre e apatia
📚 Fonte:
- Universidade Federal de Minas Gerais – Manual de Doenças Infecciosas em Cães e Gatos (acesso por bibliotecas universitárias)
- Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – Doenças Respiratórias Infecciosas em Pequenos Animais
🐱 Em gatos: Complexo Respiratório Viral Felino
Nos felinos, as infecções respiratórias têm, majoritariamente, origem viral e são bastante frequentes em locais com aglomeração de animais. O risco é elevado em gatis, abrigos e colônias, especialmente quando há animais não vacinados.
Agentes principais:
- Herpesvírus felino tipo 1 (FHV-1)
- Calicivírus felino (FCV)
- Chlamydophila felis
- Bordetella bronchiseptica
Sinais clínicos:
- Espirros intensos e frequentes
- Conjuntivite, secreção ocular e nasal
- Febre, inapetência e prostração
- Ulcerações orais, em casos por calicivírus
- Em casos crônicos, alterações respiratórias recorrentes
📚 Fonte:
- Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Atenção à Saúde de Gatos em Abrigos
- Revista Clínica Veterinária – artigo: Doenças respiratórias felinas em ambientes coletivos
Por que os casos aumentam no inverno?
Vários fatores contribuem para o aumento da prevalência dessas doenças nos meses frios:
- Ambientes fechados: para manter o calor, muitas casas e clínicas reduzem a ventilação, favorecendo a concentração de agentes infecciosos.
- Estresse térmico: animais expostos a temperaturas muito baixas sofrem queda na imunidade.
- Aglomeração de animais: em hotéis, daycares e abrigos, o contato direto facilita a transmissão.
- Baixa umidade do ar: resseca as mucosas e as torna mais suscetíveis a infecções.
Diagnóstico e diferenciais
Na maioria dos casos, o diagnóstico é clínico, baseado nos sinais apresentados e no histórico do paciente. No entanto, casos persistentes ou graves exigem investigação complementar:
- Hemograma e bioquímica sérica
- Radiografia torácica (suspeita de pneumonia)
- Exames de PCR para identificação de vírus ou bactérias
- Lavado traqueal ou rinoscopia (em casos recorrentes)
Diferenciais importantes incluem: corpos estranhos, neoplasias, infestações parasitárias (como Oslerus osleri em cães), rinite fúngica e colapso traqueal.
📚 Fonte:
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Protocolos Diagnósticos em Clínica de Pequenos Animais
Manejo e tratamento
O tratamento depende do agente envolvido e da gravidade do quadro:
- Casos leves a moderados: manejo sintomático com fluidoterapia oral, mucolíticos e anti-inflamatórios não esteroidais.
- Casos graves ou com pneumonia: suporte intensivo, fluidoterapia venosa, antibióticos de amplo espectro (com base em cultura e antibiograma), nebulização, oxigenoterapia quando necessário.
- Gatos com herpesvírus recorrente: podem se beneficiar de antivirais como famciclovir e suplementação com lisina, embora essa última tenha evidência controversa.
É fundamental manter o isolamento dos animais sintomáticos, especialmente em ambientes com múltiplos indivíduos.
📚 Fonte:
- Programa de Educação Continuada em Medicina Veterinária (PROVET-SP)
- Hospital Veterinário da Universidade de São Paulo (USP) – protocolos internos
Prevenção: o melhor tratamento
A prevenção continua sendo a forma mais eficaz de controle das doenças respiratórias, especialmente durante o inverno.
Recomendações:
- Vacinação em dia: cães devem estar protegidos contra adenovírus, parainfluenza e Bordetella. Gatos devem receber vacinas contra FHV e FCV.
- Ambientes bem ventilados e higienizados
- Evitar aglomeração de animais
- Orientar tutores a procurar atendimento aos primeiros sinais (espirros, tosse, secreção nasal)
📚 Fonte:
- Conselho Federal de Medicina Veterinária – Guia de Boas Práticas para Clínicas e Hospitais Veterinários
- UNB – Vacinação de cães e gatos: recomendações técnicas para profissionais
Conclusão
A estação mais fria do ano demanda atenção especial dos médicos veterinários. O aumento das doenças respiratórias pode ser significativo e comprometer gravemente a saúde de cães e gatos, especialmente os mais vulneráveis. O diagnóstico precoce, o manejo adequado e as medidas preventivas são indispensáveis para garantir o bem-estar dos pacientes e evitar surtos, especialmente em ambientes coletivos.